A liberdade como problema filosófico (Ensino Médio)



Prof. Ronaldo Martins Gomes

Introdução

O que é liberdade? Como sabemos se somos livres? Há diferença entre a subjetividade ou o sentir livre, e o estar livre no sentido de mobilidade do corpo? Porque não podemos escolher: familiares, sexo, nome (há exceção legal prevista), entre outras coisas?
A questão da liberdade é um assunto tão complexo quanto à humanidade. Isso em função de que a liberdade se liga à cultura de grupo social considerado em sua individualidade concreta, de forma, que grupos diferentes em que ocupam espaços próximos lidam com a questão de forma distinta, quando não conflitante.
Por outro lado, muito embora a complexidade e riqueza de significados do termo, os seres humanos ao logo dos séculos te matado e morrido em nome da liberdade. O que faz com que uma ampliação da compreensão sobre a liberdade enquanto problema filosófico seja interessante/importante para os estudantes, principalmente, por estarem em uma etapa da existência onde a liberdade é, muitas vezes, um problema concreto em relação à vida familiar, aos usos dos grupos singulares e a relação em sentido amplo com a sociedade onde desenvolvem suas relações.
Para fins de delimitação da discussão e também para manter um link com as demais disciplinas da área das ciências humanas, dividirei em cinco (5) modos de pensar a liberdade* conforme a influencia das condições sociais concretas de cada um desses períodos; são eles:
a) liberdade como participação política
b) liberdade como produção/acumulação/comércio de bens e ascensão social 
c) liberdade como revolução de classe
d) liberdade como tensão entre o indivíduo e as instituições sociais 
e) liberdade como “escravização” 


a) Liberdade como participação política
O grande exemplo aqui é a civilização grega e a “invenção” da política. Com o desenvolvimento da democracia a partir das transformações sofridas entre os séculos VIII e V na Grécia, especificamente com a criação da pólis (Atenas é a principal), entre os gregos se constitui uma forma de organização das relações políticas caracterizadas pela deliberação (diálogo argumentativo) e pela decisão (voto). Assim, os homens livres e iguais, segundo Aristóteles, eram os cidadãos (aproximadamente 10% a 14% da população de Atenas que era de 250.000 habitantes mais ou menos). A liberdade só se dava mediante participação no espaço público ou Ágora. A perspectiva grega de liberdade estava vinculada à concepção coletivista de sociedade.


b) Liberdade como produção/acumulação/comércio de bens e ascensão social
Dando um salto enorme, vamos para o início da modernidade quando a ascensão da classe burguesa enquanto produtora de bens e valores cria condições para a transformação das estruturas sociais e que corresponde as duas primeiras fases de desenvolvimento do capitalismo (comercial e industrial). Muito embora a burguesia tenha sido responsável por um desenvolvimento econômico, pela produção de bens e por um desenvolvimento tecnológico imenso, não criou um sistema de maior justiça social e distribuição de rendas, antes, levou a possibilidade de exploração (da fauna, da flora e do homem) a patamares desconhecidos. Sua concepção de liberdade era a liberdade da livre iniciativa, da conquista pelo trabalho, mas o trabalho como exploração e alienação humana. Assim, a concepção de liberdade que daí surgiu é baseada no individualismo. A burguesia para além do domínio econômico se lançou, e alcançou o domínio político, com isso o Estado moderno, administrador da liberdade dos cidadãos se tornou “instrumento” do poder econômico gerenciado pela burguesia.


c) Liberdade como revolução de classe
Com a burguesia no comando político e econômico, as relações de exploração humana chegaram a um ponto crítico, isso permitiu que pensadores contestassem o estado de coisas e isso permitiu a formação de novas concepções políticas. Entre essas concepções destaca-se o socialismo (que não é uma concepção una), seu teórico mais destacado foi Karl Marx. A ideia básica era transformação revolucionária da estrutura social (para Marx a economia) e das superestruturas (Estado, religião, cultura, direito, moral, etc), catapultando a classe explorada para o controle total Don Estado e da produção e distribuição de bens, de forma a que, pela ditadura do proletariado se chegasse ao comunismo onde a liberdade seria plena e perfeita durante a existência concreta do seres humanos. Era uma perspectiva de liberdade coletivista.


d) Liberdade como tensão entre o indivíduo e as instituições sociais
Com a intensa exploração a que o capitalismo deu oportunidade durante o século XIX e início do XX, crises surgiram: imperialismo, nacionalismos, guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945), crises econômicas (a quebra da Bolsa de Valores em 1929), entre outros problemas. Esse nível de tensão culmina com transformações sociais do pós-45 com o desenvolvimento das filosofias existencialistas e niilistas, também com a formação de coletivos humanos em todo o mundo, por exemplo, beatniks e hippies, em linhas gerais a contracultura (conceito fundamental para se compreender a ideia de liberdade desse período) rompeu com os valores e tradições dos pais, criando uma nova forma de se pensar e viver em sociedade (revolução sexual; experimentalismo na música e nas drogas; direitos dos negros, dos homossexuais; feminismo e defesa das minorias em geral; ampliação da liberdade de criação artística em sentido amplo e de difusão de ideias através da impressa alternativa; etc.). Foi um período em que as ideias de individualismo e coletivismo conviveram de forma interessante. É possivelmente uma das épocas mais ricas em termos de liberdade, muito embora tenha também produzido efeitos colaterais (uso/abuso de drogas; comportamento sexual descomprometido; ausência de referências; entre vários outros efeitos). 


e) Liberdade como “escravização”
Atualmente o desenvolvimento tecnológico é acompanhado por certas “facilidades” de acesso a bens móveis e imóveis. Isso implica em que, somado à indústria da publicidade e do marketing. Para que se adquirir certos bens “importantes” e modernos, há liberdade e facilidades para o endividamento. A liberdade é o de ter e não o de ser. Daí a questão, em que medida se é livre? O que é ser livre hoje?


_____________________________________________________


* Essa divisão é uma opção pessoal para abordar o tema, assumo a responsabilidade pelo desenvolvimento desse formato de apresentação como introdução ao estudo da liberdade, para as turmas de 2as e 3as séries do Ensino Médio.

4 comentários:

  1. gostei, muito bom para estudar

    ResponderExcluir
  2. me ajudou bastante esse texto
    ben legal
    ;)

    ResponderExcluir
  3. Trabalhando esse texto em sala de aula

    ResponderExcluir
  4. ESSE TEXTO VEIO ENRIQUECER OS MEUS CONHECIMENTOS FACILITANDO AS INFORMAÇÕES
    PERANTE OS ALUNOS.

    ResponderExcluir